Como nossas vidas são totalmente urbanas, a democracia assegura a eleição de governo fora de sintonia com o mundo natural. Não admira que a obesidade seja geral.
Engordamos e morremos de doenças metabólicas como diabetes, derrames e ataques cardíacos, não apenas por comermos demais, mas também por falta de exercício físico.
Os governos estão conscientes de que algo pode estar errado com nossa forma de vida, e mantêm repartições incumbidas do meio ambiente. O mundo natural é reconhecido, mas geralmente como terra “não aproveitada”, adequada para estações eólicas, agronegócios, reservatórios e outras obras de larga escala para atender os habitantes das cidades.
O único momento que vemos o mundo não-humano é indiretamente, na televisão, durante programas sobre a vida selvagem e em depoimentos dos astronautas compartilhando conosco a sua visão espacial da terra.
A vida na cidade é pobre em contatos com o mundo natural, e desconfio que muitos seres humanos imaginam que a vida vegetal de algum modo evoluiu para se tornar a nossa comida perfeita.
O que poucos parecem perceber é que as plantas não gostam de serem comidas e não pouparão esforços para deter, incapacitar ou até mesmo matar qualquer animal, vertebrado ou invertebrado, que tente come-las.
Certas substâncias que ocorrem na natureza não são cancerígenas em si, mas podem transformar em câncer células que sofrem mutações, sendo chamadas de co- cancerígenas.
Quem cultiva o habito de comer apenas comida natural “saudável” deveria saber que, com isso, está ingerindo uma variedade surpreendente dessas substancias naturais capazes de tornar malignas as células vivas.
E o mais importante, os cancerígenos naturais produzidos pela vida vegetal estão presentes em quantidades milhares de vezes maiores do que aqueles da indústria química.
“Somos como guias cegos que coam a mosca e engolem o camelo” Vilão da tragédia de Otelo – Shakespeare
Os fatos:
Até os 70 anos, cerca de 30 por cento de nós morremos de câncer, e poucos parecem perceber que a causa principal é o fato de respirarmos oxigênio.
Uma das grandes ironias da evolução de Gaia é que os animais tiram seu poder do oxigênio que proporciona uma quantidade enorme de energia rapidamente disponível.
Sem o oxigênio teríamos raízes e seriamos presos ao solo como uma arvore. Mas o custo desta dádiva de ser um ser livre e usar o oxigênio é uma morte mais rápida, e o preço para Gaia é a nossa capacidade de provocar a combustão.
Dentro de cada um dos bilhões de células que compõem o nosso corpo estão inclusões minúsculas chamadas mitocôndrias: as usinas de força de nossas células. Dentro dessas partículas minúsculas, o combustível da comida ingerida reage com o oxigênio respirado.
A produção de energia dessas mitocôndrias é uma torrente de baterias recarregáveis: moléculas de trifosfato de adenosina (ATP), cada uma capaz de acionar, por um instante, nossos músculos e cérebros, permitindo-nos andar, correr e pensar.
Quando descarregadas, essas baterias moleculares são carregadas de novo nas usinas de força mitocondriais. Para os nossos corpos, com seus bilhões de mitocôndrias minúsculas, o perigo vem do vazamento acidental de produtos da combustão.
À medida que o oxigênio reage com os produtos dos alimentos, poluentes involuntários são formados. Estes incluem a molécula de oxigênio com carga negativa chamado de íon super-óxido, o radical hidroxila e outras espécies moleculares altamente reativas.
Estas moléculas destrutivas escapam das mitocôndrias como poluentes tóxicos e também surgem acidentalmente em qualquer ponto do corpo onde o oxigênio possa reagir de forma descontrolada.
A onipresença de oxigênio em nossos corpos também aumenta muito o dano produzido pela radiação e venenos químicos. Os produtos radicais altamente reativos da oxidação atacarão praticamente qualquer molécula que encontre, e é assim que danificam a estrutura interna ordeira e intricada de nossas células.
Quase todo esse dano é reparado por um sofisticado conjunto de enzimas e sistemas que poderíamos considerar os serviços de segurança da vida respiradora de oxigênio. Mas é inevitável certo dano às substancias genéticas de nossas células, como o DNA, que são programas e procedimentos para a construção de novas células.
O maravilhoso é que o DNA também é reparado, e sua integridade é continuamente verificada. No decorrer da vida, alguns desses bilhões de verificações minuciosas acabam falhando.
As falhas nos reparos dos danos do oxigênio fazem nascer células novas com distúrbios fatais ou quase fatais. A maioria destas células danificadas comete suicídio celular mediante a uma pílula mortal que cada célula possui chamada capsase.
Quando ativada, ela desencadeia uma progressão ordenada rumo à dissolução. Trata-se de um processo assombroso chamado apoptose. Imagine se cada um de nós, ao concluir que é mais prejudicial do que útil, começasse a se desmontar de forma tão perfeita que deixasse uma pilha arrumada de peças sobressalentes para seres humanos futuros.
Às vezes, o dano infligido ao DNA pelos produtos de oxidação desativa um dos genes que dá as instruções para o suicídio celular, então uma célula desgarrada nasce e cresce de modo descontrolado.
Depois, após várias outras mudanças potencialmente adversas, nasce uma célula cancerosa desenfreada. Ela cresce, invade e pode acabar matando o animal que a gerou.
Esse é apenas um esboço impreciso da carcinogênese, ainda falta conhecimento dos detalhes maiores, mas ele consegue mostrar como o poder vivificante do oxigênio tem um lado sombrio.
Quando atingimos o limite de vida bíblico de setenta anos, 30 por cento de nós teremos morrido de câncer, e quase todas estas mortes têm como causa principal o fato de respirarmos oxigênio.
A radiação nuclear natural vinda dos raios cósmicos e dos elementos radioativos do solo, ar e nossos lares podem causar câncer, por ser bastante energética para dividir as moléculas de água abundantes na célula viva e liberar aqueles mesmos radicais livres resultantes do metabolismo oxidante. Outras fontes de câncer naturais e artificiais agem como a radiação, mas nenhuma delas, afora fumar cigarros e expor-se demais ao sol, acrescenta muita coisa à taxa de 30 por cento daqueles que morrerem por respirar oxigênio.
A inflamação, como o nome indica, é uma sensação de queima e vem sempre acompanhada por uma oxidação maior no tecido inflamado e por uma taxa maior de reprodução celular. Poucos sabem que o oxigênio do ar é o carcinógeno predominante em nosso ambiente, mas multidões estão convencidas de que a maioria dos cânceres é uma conseqüência evitável da poluição ambiental, e uma torrente de artigos respalda essa falsa crença.
Como é possível que algo tão bom e benigno como a energia nuclear tenha sido demonizada a ponto de pessoas e governos sensatos terem medo de usá-las?
O temor resulta da vulnerabilidade das pessoas ao espantoso poder enganador de uma falsidade incessantemente repetida. Como é possível que os profissionais das usinas nucleares vivam mais tempo que a população em geral, e bem mais que os mineiros de carvão?
Nosso medo do câncer faz com que tendamos a perder toda a noção de proporção. Por mais que o medo pareça justificado, podemos ficar tranqüilos. Apesar de todo o nosso temor do câncer da radiação, dos produtos químicos na comida e até dos telefones celulares e linhas de transmissão, vivemos mais anos que os nossos antepassados.
Adaptado de "A vingança de Gaia - J. Lovelock"
Por Diogo Leonardo Marques dos Santos